Por quê? Por que usam tanto a imagem de Deus – o sagrado Deus da tradição judaico-cristã – para qualquer cotidiano passageiro? Para qualquer inutilidade, qualquer tema, seja este religioso ou não, qualquer conversa, seja uma declaração de amor ou discussão pesada. Em todos os momentos há religiosos que sentem a necessidade de justificar qualquer argumento pela palavra de Deus. Isso é uma maneira de demonstrar o poder Dele ou profanizar a figura divina?
É incrível como a função do Senhor conseguiu se minimizar às bobagens humanas. Assim, amaciam qualquer conflito, dando um soco almofadado no adversário. Algo como: “vocês, ateus, são criaturas perdidas no mundo, pensam que sabem, mas sua lógica materialista sucumbirá diante das palavras de Deus”. E quem foi atacado vai falar o quê? Quando o relativo entra em cena, a polêmica morre. O que usar como argumento contra aquele que se utiliza não de uma observação do qual todos podem entender, mas de uma crença secular adorada por um grupo de pessoas?
Para ser mais direto, é mais ou menos assim: “Vá se foder, não tenho mais o que falar com você. Tudo de bom, fique com Deus”. Que bondade é essa? Bondade? Pelo que os religiosos estão me mostrando, basta ver em qualquer discussão pela internet, é que Deus virou uma espécie de silenciador de uma pistola do povo. Pode-se xingar sob o manto de Deus, pode-se matar sob a áurea do Senhor. Não importa a ética, a moral, os valores universais de uma sociedade que anseia por respeito. Se qualquer transgressão for assinada com a fidelidade Nele, então está tudo certo. O errado transmuta-se. Pelos religiosos, a lógica social é simples: o certo é o que Ele defende, o errado é o que repudia.
Eles lutam contra o aborto, eutanásia, pesquisas com células-tronco, homossexualidade etc, em suma, lutam contra a liberdade enquanto defendem um inexplicável e incoerente “direito à vida”. Lutam até contra o direito de você não ser da religião deles. Porém, essa ótica, pelo que está escrito numa enciclopédia sagrada, a Bíblia, é a maior demonstração de amor ao próximo que podemos oferecer. Além disso, precisaríamos louvar a Deus o tempo todo por qualquer ação, ficar babando aos pés dos santos sobre os altares, bater cartão no confessionário e proferir orações das quais não se entende nem a conjugação verbal.
Ainda acredito que a forma de conduta dos cristãos foi distorcida por uma facção milenar que interpretou de maneira preconceituosa as leis divinas, talvez propositadamente. Como um Deus que representa o amor pode disseminar tanta discriminação? A indiferença que a Igreja apresenta em relação à causa dos problemas sociais é vergonhosa, ainda mais quando vemos que engajada ela sempre foi, entretanto, a corrupção, que não é só de órgãos políticos, atolou o ideal sagrado num ciclo interesseiro que vemos desde o medievo: antes vendendo passagens para o céu, e agora negociando fé em shows que lotam arquibancadas.
Uma representante cristã disse que as pessoas colocam a imagem de Deus em tudo, e propunha que O livrássemos dos problemas banais. Resultado: foi suspensa do catolicismo por um ano. Suspensão por falar aquilo que é o mais óbvio. Hoje em dia um cara reza para que o cinema não esteja lotado, faz oração para conseguir uma namorada, faz promessa para emagrecer dois quilinhos. Que fé é essa? Uma fé solúvel, como muito bem colocou Fernando Anitelli, da banda orgulhosamente pagã O Teatro Mágico.
Sei que há cristãos que vão concordar comigo, pois percebem que houve uma banalização pró-hipocrisia. Nem precisei entrar em detalhes sobre a Igreja na história, pois já se sabe que nunca foi de plausível honestidade. Esses cristãos sabem disso. E nem entrei no mérito da ideologia cristã em si, mas sim daqueles que a executam. São esses que criticam os ateus por denegrir a imagem de Deus, mas são eles mesmos que vulgarizam sua própria crença. Colocam a culpa dos males da sociedade sobre aqueles que descartam o credo, mas atuam de maneira muito mais segregadora do que eles.
Entretanto, é evidente que muitos vão me criticar. Vão falar que sou um filho do capeta cego na ilusão positivista desenvolvida supostamente pela ciência. Eles se dizem odiar a ciência, mas vivem dela. Eles se dizem propagadores do amor, mas pulverizam a discordância. Se soubessem mesclar os ensinamentos divinos com a atualidade do nosso mundo e sociedade, poderiam fundir os dois numa ideologia muito mais igualitária. Ser cristão não significa pensar por orações e falar por profecias.
Adriano Senkevics pertence ao blog Letras Despidas.